Manuela D'Ávila fala de livro, fake news e revolução do amor: ‘Espero que o Brasil sobreviva’


Trinta e três notícias falsas envolvendo o nome de Manuela D’Ávila. Trinta e três. Contando apenas as que foram derrubadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Contando apenas o contexto das eleições presidenciais de 2018, quando ela abriu mão da sua candidatura à presidência pelo PCdoB para concorrer à vice-presidência na chapa encabeçada por Fernando Haddad (PT), na votação que deu vitória a Jair Bolsonaro (PSL). Seu corpo, sua sexualidade, sua fé, suas tatuagens, suas falas, suas roupas, sua filha de três anos. Foi tudo parar naquele universo paralelo da produção de mentiras, que se espalha na velocidade da luz através das redes sociais e do WhatsApp, principalmente. Aquele mesmo mundo onde vale a máxima 'enganar para conquistar' e onde o extenso currículo político de Manuela, bem como suas propostas, foi ignorado. Falando em redes sociais e falando em filha, Laura é outro assunto facilmente associado a Manuela. A menina não é só sua cria, mas faz parte da sua pauta e da sua luta. Pelo direito de amamentá-la no trabalho, passando pelas exigências de estar com ela durante campanhas e compromissos oficiais: “A minha filha precisa de mim e precisa ser amada”, defendeu ela, em algumas ocasiões.


E agora Laura, que é fruto do casamento de Manuela com o músico Duca Leindecker, virou livro. Manu, como é chamada por alguns, lançou Revolução Laura: reflexões sobre maternidade e resistência (Editora Belas Letras), no qual registra a sua experiência de maternidade, os desafios, as descobertas e a relação construída nos detalhes do cotidiano vivido durante novembro de 2017 e novembro de 2018, quando, juntas, mãe e filha percorreram o país. "É um livro sobre amor", disse Manu, nesta entrevista exclusiva para o Uma Artista Por Dia, feita com a ajuda do WhatsApp (sim, a rede social também serve a bons propósitos).


Manuela, mãe, madrasta, esposa, cristã, gaúcha, jornalista, ex-deputada federal e estadual, militante pela diversidade e direitos das mulheres, objetiva e, quando o assunto permite, bem-humorada, é a entrevistada desse especial de Dia Internacional das Mulheres.



Reprodução Instagram

UAPD - Manuela, como nasceu a ideia do livro e o que os leitores podem esperar do 'Revolução Laura'?

O livro surgiu a partir de uma conversa. Uma amiga minha, colega de faculdade, que é escritora, professora de escrita criativa, Cris Lisbôa, começou a observar os textos e acreditou nesse projeto antes de eu acreditar. Ela me inspirou, me orientou, fez com que eu tivesse coragem de escrever. Eu não escrevi imaginando despertar reação nenhuma, que seja não os sentimentos que eu vivo. Esse é um livro de amor, essa foi a resposta que a gente encontrou ao não-amor que a gente recebeu muitas vezes. Seja a não-acolhida nos ambientes públicos, seja o ódio, por eu ter minhas ideias políticas e as pessoas não terem a cordialidade no trato político, de acreditarem na violência como instrumento de mediação. O livro é uma resposta minha, é sobre privilégios, sobre direitos, sobre maternidade, mas não pretende ser nenhum guia, nenhum estudo aprofundado sobre nenhum desses temas.


Esse é um livro de amor, essa foi a resposta que a gente encontrou ao não-amor que a gente recebeu muitas vezes

UAPD - Qual o maior desafio de educar uma menina hoje?

Eu acho que o maior desafio de se educar uma menina é ter consciência, no meu caso, do quão cruel o mundo é para as mulheres, porque a forma como eu educo a Laura é a forma como eu educaria qualquer criança. Não existem elementos na educação que possam ser adequados ao gênero, porque, por exemplo, eu não brinco com ela com nada que precise de uma vagina ou de um pênis. Então a questão não está em como eu a educo, mas na quantidade de coisas que eu preciso ensinar, que não iriam fazer parte da educação dela e que fazem por ela ser uma menina. Eu me dei conta disso muito cedo, no dia que eu fui trocar a fralda e ela disse pra mim: "tá, já sei, já sei, só eu posso mexer na minha pepeka". Ela era muito pequena e eu me dei conta que eu já tinha passado para ela muitos dos traumas que eu tenho por ter que lidar com violência contra crianças, violência sexual contra meninas. Eu não acho certo ter que ensinar isso para uma criança, eu ensino porque é necessário e é sofrido ter que fazer isso, é sofrido imaginar que ela vai ser uma mulher nesse mesmo mundo que eu sou, um mundo tão cruel com as mulheres.




UAPD - O seu nome e o da sua filha, por vezes, estiveram envolvidos nas fake news de 2018. Como você e Duca Leindecker, seu marido e pai da Laura, lidaram com esses ataques à sua família?

A gente lida com isso há muito tempo, o ódio, as fakes news, fazem parte da minha vida com o Duca e a Laura desde a gestação dela e geraram muitos episódios tristes. Eu descrevo alguns deles no livro, como a violência física que a gente já sofreu, como os ataques durante o período eleitoral e a gente decidiu enfrentar isso com o que a gente tem de melhor, que é o amor. Por isso também que este livro é uma forma de resposta a isso, do esforço que nós fizemos para que nós não nos tornássemos como eles. Como diz o Nietzsche, que ao olhar para o abismo, a gente tem que cuidar para o abismo não olhar para gente. Talvez esse livro seja uma forma de a gente não olhar para esse abismo.


UAPD - Em meio aos muitos acontecimentos das últimas eleições presidenciais, houve algum momento em que você teve certeza que iria perder, ou que iria ganhar?

Quando eu estou trabalhando em um projeto, eu nunca penso como vai ser o dia seguinte, então eu nunca pensei se a gente ia ganhar ou perder. Eu sempre trabalhei dando o meu máximo para que a gente ganhasse. Acho que assim funciona muito melhor.


Eu faço terapia há muitos anos, há mais de uma década eu cuido da minha saúde mental

UAPD - O que você faz para não absorver tanto a raiva evidente nos comentários das suas postagens, ou das notícias a seu respeito, os haters e toda a energia negativa que vem da Internet?

Acho que não existe como não absorver um pouco, né? Cada dia é um dia. Tem dia que eu estou super bem-humorada, acho graça, tem dia que me abala profundamente, tem dias que eu fico muito preocupada, tem dias que eu fico com raiva. Então cada dia é um. Eu faço terapia há muitos anos, há mais de uma década eu cuido da minha saúde mental. Eu coloco isso em primeiro lugar. Há muitos anos eu me dei conta que eu só sou boa no que eu faço se eu estiver feliz e saudável. E isso significa um conjunto de coisas, inclusive a saúde mental.



UAPD - Você acredita em Deus? Faz algum trabalho terapêutico ou espiritual?

Sim, acredito. Mas meu trabalho terapêutico central não é religioso, é terapia mesmo. E eu tenho pensado, estudado muito mais sobre esse tema porque uma parte grande do ódio projetado pra mim, pra minha filha, pra minha família, é de pessoas que se auto-intitulam cristãs. E eu que fui educada a vida inteira no catolicismo e sempre me identifiquei cristã, tenho pensado muito sobre os ensinamentos de Cristo porque, pra mim, não existe espaço para o ódio na obra dele, na Bíblia, nos Evangelhos.


Espero que, daqui a treze anos, quando a Laura votar pela primeira vez, que isso aconteça num Brasil muito melhor, democrático, livre e que respeite a diversidade

UAPD - O que você espera dos próximos anos de gestão Bolsonaro e como você imagina que o Brasil será quando a Laura votar pela primeira vez para presidente?

Eu espero que o Brasil sobreviva e que a gente sobreviva em todas as dimensões, física e emocional. E espero que daqui a treze anos, quando a Laura votar pela primeira vez, que isso aconteça num Brasil muito melhor, democrático, livre e que respeite a diversidade.


UAPD - Como você pretende abordar com a Laura algumas das suas lutas, como a igualdade de gênero, os direitos da comunidade LGBT, diretos das mulheres. A partir de quando e como esses podem ser "assuntos de criança". Aliás, existe “assunto de criança”?

Para mim não existe assunto de criança ou de adulto. Existe a vida e ela vai se impondo na rotina daquela criança e na forma como a família, os amigos, e os ambientes que ela convive vão pautando esses assuntos. Eu já tive que lidar com coisas com a Laura que eu, sinceramente, torço para que nenhum pai tenha que lidar, como "por que aquela mulher brigou contigo? Por que ela te odeia?". São coisas que não são "assuntos de criança", mas fazem parte da vida da minha família, portanto fazem parte da vida da minha filha. Assim como outros temas relacionados a "coisas de menino", "coisas de menina", o ambiente externo pauta isso e minha família não. Então, as coisas vão surgindo e eu vou enfrentando com verdade, embora a linguagem possa ser diferente, o assunto é único, que é a realidade. E a realidade se impõe. Todo mundo tem um encontro marcado com sua excelência, o fato (ri).



UAPD - Você já comentou diversas vezes que teve problemas de aceitação da sua imagem, do seu corpo, principalmente na adolescência. A gordofobia foi um dos fatores dessa busca da mudança do teu corpo?

Quando eu emagreci, eu não tinha transtorno de imagem, então eu não vinculo a isso. Eu fui desenvolvendo o transtorno de imagem ao longo dos anos, depois dos 25, talvez.


UAPD - Você está envolvida diretamente com algum projeto ou movimento social voltado para mulheres e seus direitos?

Nós criamos o Instituto E Se Fosse Você, que trabalha com rede de ódio e fake news. Isso, pra mim, tem vínculo direto com mulheres porque as redes de ódios e mentiras são, sobretudo, vinculadas a nós porque é uma forma de encontrar o preconceito que existe na sociedade. E, além disso, eu continuo com minha militância bastante focada na questão de gênero.


A Laura me fez ter mais consciência da potência que as mulheres têm e da minha própria potência

UAPD - O que você faz no seu tempo totalmente livre, sem Duca e Laura? Você tem algum livro e música preferidos?

Não tenho muito tempo livre sem o Duca e a Laura porque eu trabalho bastante sem os dois, então quando eu volto, eu quero ficar com eles. Mas eu durmo quando eu estou totalmente livre (ri), porque eu durmo muito pouco. Não tenho livro e música preferida. Eu leio muito e gosto de muitas músicas, então eu fico com elas o tempo inteiro na minha cabeça, como se tivesse trilha sonora (ri). Tanto que eu converso com a Laura cantando. Às vezes as pessoas veem a Laura nos vídeos que eu posto falando comigo cantando e acham que é por causa do Duca, que é cantor, mas é por minha causa, que converso com ela assim (ri).


UAPD - O seu livro nomeia a sua filha como uma revolução. Quem é a Manu depois da revolução Laura?

A Laura me fez ter mais consciência da potência que as mulheres têm e da minha própria potência. Eu sou alguém muito melhor depois dela.


RELEMBRE


Vinte e seis nomes compuseram as chapas de presidente e vice nas eleições de 2018. Sete deles, incluindo Manuela D'ávila, eram mulheres.


Marina Silva (REDE), Vera Lúcia (PSTU) concorreram à presidência. Outras cinco concorreram à vice-presidência: Suelene Balduino (PATRI, vice de Cabo Daciolo), Kátia Abreu (PDT, vice de Ciro Gomes), Ana Amélia Lemos (PP, vice de Geraldo Alckmin), Sônia Guajajara (PSOL, vice de Guilherme Boulos).


CONFIRA


Algumas links que desmentem as fake news espalhadas sobre Manuela D'Ávila durante o último período eleitoral.

- É #FAKE imagem em que Manuela D'Ávila aparece com camiseta 'Jesus é travesti'

- É #FAKE post em que Manuela D'Ávila diz que é mais popular que Jesus e que o cristianismo vai desaparecer

- CONTRA A FAKE NEWS - Manuela D'Ávila grava vídeo para rebater mentiras

- Manuela d'Ávila comenta mais fake news que circulam na internet


Por Lorena Portela

Fotos: Flickr Manuela Dávila

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