Maritana Quaresma, ilustradora

Atualizado: 30 de Jan de 2019

Maritana Quaresma, artista plástica. É de Fortaleza (CE) e mora em ilha Grande, distrito de Angra dos Reis.





Fazia um calorão em São Paulo, em um sábado de verão, janeiro de 2015, quando Clarissa, minha amiga que me hospedava por um mês, recebeu a Maritana em casa. Maritana ia ficar só o fim de semana e, como eu ocupava o quarto de hóspedes, ela dormiu na sala, com o então namorado e os cachorros da Clarissa, José Boby e Maria Peny.


No domingo, nós três saímos para almoçar num restaurante japonês na Liberdade, onde tiramos os sapatos, comemos noodles com tofu, ovo cru, carne e outras magias e bebemos saquê. Maritana, que eu acabava de saber que era artista, contou detalhes da temporada no Japão, onde morou em 2011, o mesmo ano do tsunâmi. Falou da saudade e se emocionou com a comida durante o almoço inteiro. Desde então, eu e ela nos falamos pouco, mas passamos a nos acompanhar com a distância e a proximidade permitida pelas redes sociais.


Foi quando, em 2016, o tsunâmi se repetiu e ela soube que estava com Linfoma de Hodkins, um câncer que afeta o sistema linfático. E, em meio à sua própria desconstrução e reconstrução, resolveu começar um diário ilustrado para falar sobre o tratamento.



O diário abriu portas, janelas, percepções e caminhos. Foi dele que nasceu uma artista com consciência mais feminista, mais social, mais solidária, mais política. Por causa disso, a história da Maritana foi a primeira que eu quis contar aqui. E é possível saber o motivo na conversa a seguir. A primeira do Uma Artista por Dia.





UAPD - Maritana, você já viajou muito, entre trabalho, pesquisas, estudos. Conta um pouco desse caminho e das suas motivações.  


Segui pelas veredas acadêmicas até descobrir o câncer. Fui por muitos anos bolsista e estudiosa de cinema. Foi estudando que acabei chegando ao Japão, onde morei por um ano (em 2011, ano do tsunami!). Sempre gostei do país, mas foi morando lá que me apaixonei. Eu estudei cinema japonês contemporâneo, artes tradicionais (matérias teóricas e práticas), além de ter vivido uma reviravolta interna, no coração e na cabeça. Nesse período eu viajei muito. Conheci Hong Kong, Tailândia, Cingapura, Malásia, Holanda, Bélgica, Áustria, Itália...

Tudo com pouco dinheiro e muita coragem. Na verdade, foi assim desde que sai de casa, aos 18 anos, para estudar cinema no Rio. Consegui bolsa de estudos na Puc-Rio e trabalhava em paralelo. Juntava meu dinheiro e viajava. Eu tinha muita energia. 


O caminho pelas artes plásticas veio desde pequenininha, mas foi na EAV (Escolas de Artes Visuais do Parque Lage) que eu "me encontrei". Eu tinha uma vida dupla, entre academia e a criação. O maior desafio que tive foi conciliar a academia com a produção artística e o pragmatismo da vida: pagar contas, especialmente, e viver numa cidade grande e hostil, onde podia estudar e trabalhar.



UAPD - Dentre todos esses processos e descobertas, qual era o cenário quando você descobriu o câncer.  


Era começo de 2016. Eu tinha 28 anos. Foram muitos exames, meses e meses. Janeiro foi a primeira vez que ouvi de um médico a suspeita de que tinha câncer e final de abril comecei as quimioterapias.


Eu estava cansada da vida que estava levando: pagando caro para viver, trabalhando muito e sem pique para nada. Eu não conseguia acabar o dia e cumprir todas as minhas obrigações, estava estafada, tinha brigas sérias com minhas companheiras de apartamento. Elas me achavam irresponsável e eu ficava muito deprimida com aquilo, me sentia fraca, incapaz, achava que a culpa era minha. Eu não sabia, mas já estava doente. Então, resolvi largar tudo e ir morar na Ilha Grande. A princípio era somente um período sabático.


Eu estava numa luta interna para não cair numa depressão, pois não me achava suficientemente capaz de tocar a vida e buscava maneiras de me encaixar dentro de um sistema que todos fazem parte

Uma vez eu fui fazer uma trilha por lá e esmoreci, quase desmaiei, fiquei com os dedos inchados. Como no passado eu costumava ser uma pessoa dinâmica, vi que alguma coisa de errado estava acontecendo comigo, que não era simplesmente minha culpa como achei que fosse um tempo antes, quando morava com outras garotas. Aí resolvi investigar. De agosto de 2015 até janeiro de 2016 eu fui a muitos médicos, muitos. Eu estava numa luta interna para não cair numa depressão, pois não me achava suficientemente capaz de tocar a vida e buscava maneiras de me encaixar dentro de um sistema que todos fazem parte. Nesse ínterim descobri o câncer e muita coisa fez sentido, depois disso. E não poderia ter sido melhor tratar o câncer morando na Ilha Grande.





UAPD - Depois do diagn[ostico, o câncer te fez abrir mão de algum plano pessoal ou profissional imediato?


Eu já estava de mudança para Ilha Grande. Tinha acabado de defender meu mestrado e planejava ficar uns 6 meses lá. Eu tinha milhares de projetos artísticos e morava no lugar ideal para colocá-los em prática. Era a primeira vez que me via nesse cenário, para mim ideal. Quando descobri o câncer, apenas mudei os planos de criação (que antes exigiam muito mais do meu corpo e energia), e por isso decidi fazer o diário como uma peça artística mesmo.


UAPD - Como começou a ideia do diário ilustrado no Instagram?


Eu queria seguir um projeto de colagens que já tinha, que normalmente levo horas e horas trabalhando. O meu corpo não aguentaria ficar tantas horas sentada, mexendo com recortes pequenos de papel. Eu precisava de uma plataforma móvel, que estivesse comigo em casa, no hospital, no ambulatório onde tomava as quimioterapias e que não desse trabalho para quem me acompanhasse nessa jornada. Nada de folhas e folhas de papel, tinta, caderno, câmera fotográfica grande... condensei tudo no celular, que era câmera, papel e pincel, tudo junto, e poderia levar a qualquer lugar. Assim nasceu a ideia de um diário totalmente ilustrado no celular, no qual contava minhas experiências durante o processo do câncer. Eu precisava produzir, sentir que meu plano de criação não morreria só porque estava doente. Por isso decidi que o tratamento também passaria pela criação artística, que eu não poderia deixar isso de lado.


Eu precisava produzir, sentir que meu plano de criação não morreria só porque estava doente


UAPD - Qual a repercussão do Diário? O que ele te trouxe, emocionalmente falando. Ele te aproximou de outras pessoas com problemas similares? Que histórias você ouviu? 


O diário tomou proporções imensas. Muitas pessoas se reconheceram e também nutriam admiração por eu não ter desistido das minhas vontades, do tal "plano de criação" mesmo estando doente. Eu não tinha noção do poder que o diário tem, como ele move boas coisas, gera boas energias para mim e para quem o acompanha(va). Esse foi o melhor retorno, que também foi uma surpresa. As pessoas sentiam empatia por mim e, consequentemente, eu por elas. Ter o afeto das pessoas, e ter afeto pelas pessoas, sentir que muitas delas tomavam meu exemplo como inspiração e que, assim, eu acabava ajudando-as é uma coisa grandiosa. Fosse porque relativizavam os seus próprios problemas, se punham no meu lugar e no lugar de outras pessoas que sofriam de males parecidos, fosse porque também estavam doentes e tomavam meu exemplo como uma superação de obstáculos, o diário ajudou a mim e a muitas pessoas.


UAPD - Quando tempo durou o tratamento até a cura? 


Soube que entrei no estágio de remissão em dezembro. Esse é aquele período que ainda fico uns bons anos tomando conta que o câncer não volte, fazendo exames periodicamente. Então, cura mesmo só pode-se dizer daqui uns anos, talvez 2021. Mas o início do tratamento foi em abril e a remissão veio em dezembro. Ou seja, 8 meses, mais os muitos meses de investigação até descobrirmos o que eu tinha.



UAPD - Quais os incômodos que te levaram a colocar a temática do feminismo em tuas postagens do diário?


Eu sempre fui uma mulher muito questionadora, mas, como muitas outras, sempre fui refém das inseguranças que o mundo nos dá. Com o câncer, eu perderia o cabelo, não poderia mais me depilar por um bom tempo, teria olheiras, reteria líquidos, ficaria com as unhas fracas e pele opaca. Eu não queria me esconder atrás de uma peruca e uma camada grande de maquiagem, mas também não queria ser escrava da doença. Foi aí que questões feministas se tornaram cada vez mais inevitáveis. Eu estava doente, mas não queria que tivessem pena de mim ou só me respeitassem por isso. Tampouco queria deixar de me sentir bonita por estar doente, mas não queria fingir estar saudável para , só assim, me sentir bonita, com maquiagem e peruca, como disse.


Meu corpo foi veículo e linguagem no diário e eu sei que o corpo de uma mulher doente muitas vezes choca e incomoda. Eu não queria cair no caminho sedutor de virar "musa do câncer", trazer um viés plástico ao diário de maneira manipulada. Não queria mostrar as curvas só quando achava que estava sensual, por exemplo. Nem queria esconde-las só porque estava doente. É por isso que segui um caminho onírico, de sutilezas. 




Meu corpo foi veículo e linguagem no diário e eu sei que o corpo de uma mulher doente muitas vezes choca e incomoda

Eu sentia que muitas pessoas me achavam "café com leite", não teciam suas críticas só por eu estar doente. O universo masculino-machista, ou apenas machista, tem pouquíssima empatia com as causas das mulheres. E é exatamente por isso, por ser mulher e por estar doente, que me sentia no dever de ter o "atrevimento" de chocar quando fosse necessário. E eu sempre achei necessário falar das nossas causas. Percorria problemas sérios através dos desenhos, muitas vezes infames, banais, quase ingênuos. Noutras vezes, ficava nua nas fotos, mostrava minhas cicatrizes, estrias, espinhas, os cortes das cirurgias, as manchas da quimioterapia, o cateter, etc., porque tudo aquilo fazia parte de mim, da minha história. E a história de toda mulher é rica.


UAPD - O diário continua, mesmo não sendo mais o diário do câncer. O que você quer continuar contando através dos seus desenhos?


Me deu uma sensação de vazio quando ele acabou, aquela sensação de "e agora, para onde vou?" - aí pensei, vou para onde quiser! (Rs). Por um tempo eu parei de falar sobre política brasileira, porque aquilo não estava me fazendo muito bem. Eu precisava me recuperar, dedicar minhas energias à saúde, e por isso tomei a decisão de falar bem menos sobre os abalos sísmicos que todos os dias acontecem por aqui. O que quero, hoje em dia, é manter meu teor crítico, mas a saúde. As causas feministas sempre estarão presentes no conteúdo que produzi. A seguir, quero continuar meus projetos artísticos na rede, ainda que deixe as ilustrações pelo celular um pouco de lado, ainda mais que agora me sinto ativa novamente para pintar e fazer minhas colagens, projetos estacionados.


No Instagram: @maritanaquaresma


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