Moda, política e saúde mental: Carol Burgo e a arte de ser muitas

Atualizado: 20 de Fev de 2019



Carolina Burgo é uma equação e não há outro jeito de começar esta apresentação. Explico: pra começar, esta entrevista teve que ser feita em duas partes (mas poderiam ser três ou quatro), visto a quantidade de assuntos que essa mulher abrange. Carolina vai da moda à alimentação saudável num estalar de dedos. De política à depressão facilmente. Ela também é libriana e contesta a si mesma o tempo inteiro. Explico de novo: numa época em que todo mundo quer ser algo, Carol dirige na contramão e parece querer não ser. Não acredita que seja uma artista (embora seja), se mostra desconfortável com o posto de empresária por "falta de aptidões" (embora as tenha), rejeita a imagem glamourizada da vida virtual, e deixou de lado uma bem-sucedida carreira como diretora de arte na Publicidade para viver as aflições do empreendedorismo. Agora passou a repensar o próprio negócio.


E não é só. Quando a alcunha de blogueira estava quase caindo como uma luva, a pernambucana que hoje mora no Rio de Janeiro resolveu alternar as postagens de looks do dia com um conteúdo fortemente político e emprestou sua voz para projetos de alimentação saudável, consumo consciente e o combate à depressão. E no meio desse bolo de rolo, ela encontra tempo para ser pintora, ilustradora, designer, produtora e faz parte do restrito time de influencers bons de se conhecer pessoalmente. Não porque ela seja diferente do que vemos diariamente nos Stories. Mas pela respiração aliviada que dei após perceber, que de perto, com um copo de vinho barato na mão e dançando funk num bar decadente em Lisboa (onde nos conhecemos), ela é exatamente a mesma. Roupa bonita, sorriso gigante, pose zero e muita cuca no lance. Ufa!


Na conversa com o Uma Artista Por Dia essas mil versões de mulheres e artistas que definem a Carolina falam um pouco sobre suas inquietações, dão um conselho para si mesma, comentam sua trajetória e, claro, revelam suas inspirações. Tudo no plural, como não poderia deixar de ser.


UAPD - Carol, você é diretora de arte, ilustradora, pintora, estilista, escreve, canta, faz quadradinho, fotografa e, se duvidar, faz chover. Enfim, é uma artista e vive disso. Você se considera artista? Há algo que te faz pensar que você está em outro grupo que não esse?

Não me considero uma artista e acredito que parte dessa não-consideração passa pela minha extrema autocrítica e, com certeza, uma síndrome de impostora muito grande (tô trabalhando nisso, risos). Sempre me enxerguei como publicitária por ser essa a minha formação acadêmica, então todo o resto que eu produzo de forma intuitiva, eu acabo encarando sempre como algo experimental, inacabado, insuficiente. Sempre me vejo como diretora de arte, nunca como artista, apesar de saber que muita gente me enxerga como tal.





UAPD - A sua trajetória começou a se firmar na publicidade e ganhou visibilidade com a moda, a internet e os blogs. Como foi esse caminho e o que te impulsionou a fazer da moda um meio de vida?

Por mais estranho que pareça, a moda veio primeiro. Segundo relatos da minha mãe, eu devia ter uns 3 ou 4 anos, quando a minha brincadeira preferida era passar o dia inteiro trocando de roupas. Mamãe ficava louca de ver as roupas espalhadas pela casa, mas não tinha jeito, todo dia eram novas fantasias e personagens que eu criava com os looks. Pra completar, minha mãe sempre foi costureira. Criava roupas e vendia em feiras, de forma que eu cresci dentro do atelier de costura dela. Mas a vida dela era tão difícil e cansativa, que eu optei por me afastar completamente da moda e cursar publicidade, já que eu também gostava de ilustrar e me achava uma boa vendedora de ideias.


O amor pelas roupas seguia em segundo plano. Eu comprava muito em brechós e sempre criava looks diferentes. As amigas achavam tudo muito incrível e eu acabei criando um blog com meus looks ilustrados. Sim, eu ilustrava os looks! Foi a primeira movimentação "de volta" pra moda. Depois resolvi fotografar os looks e escrever meu blog com mais dedicação e quando comecei a ficar realmente cansada do trabalho super explorador das agências de publicidade, pensei que talvez fosse a hora de voltar pra moda, dessa vez na criação e não só no uso.

Ser mulher sempre pressupõe que você seja obediente, humilde e fale baixo. Eu não sou assim. Não baixo a cabeça pra ninguém

UAPD - Você já contou algumas vezes das agruras do mercado publicitário e de marketing, e creditou grande parte disso ao machismo. No começo, você percebia que o que acontecia era simplesmente por você ser mulher?

Antes de eu ter qualquer noção de feminismo, eu não entendia que a minha falta de crescimento no mercado poderia ser por machismo. Pra mim sempre deixavam claro que era o meu temperamento que me impedia de crescer. O meu temperamento é igual ao de muitos homens com quem eu já trabalhei, mas hoje eu entendo que o fato de eu ser mulher e ter uma postura bem direta, objetiva, assertiva, era algo inaceitável e eu sempre fui considerada "agressiva". Ser mulher sempre pressupõe que você seja obediente, humilde e fale baixo. Eu não sou assim. Não baixo a cabeça pra ninguém e não levo desaforo pra casa.


Depois de ler muito sobre feminismo e estruturas de opressão me dei conta que eu era "difícil" aos olhos dos meus chefes homens (alguns deles pessoas verdadeiramente difíceis) justamente por não performar a complacência que esperavam de mim.


Hoje eu gostaria de dizer pra Carol do passado que não tivesse negligenciado a própria saúde para dar lucro aos outros

UAPD - Que conselhos objetivos a Carol de hoje daria para a Carol que começava seu primeiro estágio na Publicidade?

Não se desdobre em mil pessoas pra dar conta do excesso de trabalho, não trabalhe por 19 horas seguidas, com febre, com medo, com falta de perspectivas. O mercado publicitário adoeceu cada centímetro do meu corpo físico e emocional. Hoje eu gostaria de dizer pra Carol do passado que não tivesse negligenciado a própria saúde para dar lucro aos outros.



UAPD - Você cresceu em Portugal e veio ao Brasil já adulta. Quais os prós e contras de ter vivido tanto tempo fora do Brasil?

Os prós giram em torno da qualidade de vida que eu tive em Portugal e que não teria no Brasil, ainda mais vivendo em Recife. Fui criada na zona rural de Sintra, portanto minha vida foi bem pacata e livre. Não tinha violência, nem grandes pressões sobre as crianças. Tive uma infância muito tranquila, correndo no meio do mato, andando de bicicleta pelos pinhais, tomando banho de mar com meus amigos, sem exposição a sexualização precoce nem nada disso. O pouco que a gente tinha dava pra viver melhor do que viveríamos no Brasil. Nunca senti a agonia de morrer de estudar pra um vestibular como eu vi meus primos passando. Sempre achei uma loucura a quantidade de pressão (sexual, estética, acadêmica) a que os jovens são submetidos no Brasil desde muito cedo e viver em Portugal me livrou disso.


Os contras de não morar no Brasil foram mais ligados à perda do convívio familiar e às minhas raízes. Mesmo eu vindo visitar a família de vez em quando, perdi grandes momentos, festas, viagens e às vezes me dói perceber que existem tão poucos registros da minha infância junto da minha família. O outro ponto foi a questão de não ter estudado História, Geografia, Literatura do meu país. Sinto que existe uma lacuna nas narrativas que compõem a minha vida e tenho me esforçado para aprender sobre o Brasil tudo aquilo que aprendi apenas sobre Portugal.




UAPD - De uns tempos pra cá, a sua "cara" foi mudando nas redes sociais. Apesar de ainda estar muito ligada à moda, você incorporou uma militância política que não está ligada a um partido, mas ao exercício da conscientização, e fez uso dos seus veículos para levantar bandeiras, como o feminismo. Por quê?

Ler e estudar sobre feminismo foi, sem dúvidas, uma ferramenta de libertação. A partir do momento que você se conscientiza sobre o seu espaço, suas heranças, as estruturas na qual você está inserida, é praticamente impossível você não compreender o quão política é a sua existência. E a partir do momento que a gente chega nesse entendimento, a gente busca outros e outros e outros, que vão completando as histórias nossas e alheias, e isso nos dá uma dimensão de mundo mais abrangente e mais empática. É uma descoberta que eu não consigo guardar só pra mim e acabo compartilhando nas minhas redes para amplificar esse aprendizado e gerar mais debate e informação. Foi um caminho tão natural quanto qualquer outro que tomei na vida.


Ler e estudar sobre feminismo foi, sem dúvidas, uma ferramenta de libertação

UAPD - Como você lida com aquele tipo de machismo e misoginia que parecem inofensivos, do dia-a-dia, que vêm do pai, irmãos, marido, amigos mais próximos?

Olha, hoje em dia raramente lido com esse tipo de machismo misógino. Meu pai é um cara super cabeça aberta. Mesmo vindo de uma geração que tinha tudo pra ser conservadora, ele é bem fora da curva. Meu marido é outro cabeça aberta, além de ter uma disponibilidade emocional muito grande para se transformar e melhorar como ser humano e isso é muito positivo. Meus amigos também não seguem essa linha da misoginia, porque eu simplesmente me afasto de gente assim. Uma coisa que aprendi com o feminismo, é que nós mulheres não temos a obrigação de educar eternamente os homens a serem melhores. É uma carga emocional que raramente compensa carregar. Mas, nas vezes em que estive diante de comentários misóginos ou machistas por parte de amigos ou chefes, confesso que minha reação não foi pacata não. A raiva que a gente sente é muito grande e eu sempre agi de acordo com o tamanho dela: bem revoltada mesmo.


UAPD - Na Prosa, a sua marca de roupas, você emprega mulheres majoritariamente. Quais as mulheres, famosas ou não, que te influenciaram e inspiram profundamente o teu trabalho?

Em primeiro lugar, minha mãe. Por toda a sua ética profissional, por ser uma pessoa muito honesta, correta, trabalhadora, sempre disposta a aprender. Essa é a minha mulher não famosa. A segunda mulher que me inspira eternamente é Frida Kahlo. Parece bem clichê isso, né, mas ela me inspira não só no sentido artístico, mas no sentido político. Foi uma mulher que quebrou muitos estereótipos da sua época, desafiou seus papéis de gênero, se engajou politicamente no seu país e viveu intensamente sua existência. Eu me emociono só de pensar nela.


UAPD - Por que você passou a repensar o seu próprio negócio, produzindo menos coleções e incentivando outros hábitos de consumo?

Acho que a partir do momento que a gente começa a entender nosso lugar no mundo - e esse entendimento é uma busca muito pessoal - é inevitável começarmos a enxergar o porquê de certas coisas. Eu sou uma pessoa muito negligente comigo mesma. O esforço que eu dedico para ser apoio pra todo mundo e ajudar no que for preciso, eu não dedico a mim mesma. Então este ano eu resolvi repensar tudo aquilo que consome meu tempo de vida, minha saúde física e meus recursos emocionais, para que eu consiga encontrar uma equação que me faça bem e isso, claro, impacta diretamente na dinâmica do meu negócio (que me deixa louca) e no meu consumo (que tem sido irracional muitas vezes).


Dia desses li um livro chamado Sociedade do Cansaço, de um filósofo coreano [Byung-chul Han], onde ele mostra que a gente vive numa sociedade que nos condiciona a produzir muito, consumir muito e olhar muito pouco para si mesmo, o que nos leva à completa exaustão da alma. O corpo, a mente e deterioração de ambos são vistos como empecilhos à produtividade e, na busca por qualquer tipo de alívio mental, a gente acaba consumindo mais coisas que demandam mais dinheiro, que demanda mais tempo para ser conquistado. É um ciclo existencial sufocante que gera uma sociedade de depressivos e ansiosos. É bem nessa linha que eu estou repensando cada esfera da minha vida profissional e pessoal. Vamos ver no que vai dar, né?





UAPD - O seu poder de influência acabou te envolvendo em outras lutas. Como surgiu a ideia do Coletivo Pode Contar, que abre espaço para discussão sobre a depressão?

O Coletivo Pode Contar foi uma ação criada por uma agência e eu fui uma das convidadas a participar dessa ação que envolveu a gravação de alguns podcasts sobre depressão. A ideia do Coletivo era desconstruir alguns preconceitos relacionados à doença e trabalhar o assunto de forma mais empática, trazendo para o público informações, experiências, pontos de vista pessoais, dados médicos, considerando que o coletivo contava com profissionais da saúde, e palavras de afeto em forma de bate-papo. Entre maio e junho de 2018, 3 celebridades super bem sucedidas - o DJ Avicci, o chef Anthony Bourdain e a estilista Kate Spade - cometeram suicídio e eu resolvi falar nos Stories sobre como essa doença é completamente invisibilizada, tornando o seu diagnóstico e o debate em torno dela, muito restrito. Acabei contando alguns episódios depressivos que tive ao longo da vida e o Coletivo chegou a mim através desse testemunho.


A depressão é tipo uma sombra que acompanha a gente e quando a gente menos espera, ela dá as caras

UAPD - Como você lidou ou lida com a depressão?

Comecei a fazer terapia justamente para lidar com esses períodos de depressão. Confesso que eu deveria ter buscado tratamento muito antes, mas a gente acaba se negando a buscar ajuda na maioria das vezes. Interrompi a terapia quando saí de férias, na época das eleições, voltei das férias e emendei vários trabalhos que envolveram viagens constantes, então até agora não voltei. Mas a depressão é tipo uma sombra que acompanha a gente e quando a gente menos espera, ela dá as caras. É uma luta contínua, portanto voltarei em breve pro divã.



UAPD - A Internet, e mais precisamente as redes sociais, são a vitrine de muito do que você produz hoje. Se pudesse mudar algo na Internet hoje, como num passe de mágica, o que você faria?

Acabar com as fake news e o comportamento de haters.


UAPD - Qual o seu maior sonho?

O fim do patriarcado serve (risos)? Tenho muita dificuldade em definir o que seria meu maior sonho, porque meus sonhos são bem mundanos e simples, tipo: ter uma casa própria, viajar muito, ver minha mãe feliz.


Nota: Pouco antes da publicação desta entrevista, Carol Burgo inventou de escrever poesias e narrá-las em seus Stories. Acho que foi só pra me obrigar a adicionar o poetisa na lista de atividades, rs. Feito.


♥ No Instagram: @carolburgo


Fotos: Reprodução Instagram

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