Tainá Maneschy, ilustradora: erotismo, redes sociais e censura

Atualizado: 6 de Fev de 2019


Foto: @caiojcbrito

De Gustave Courbet à shunga, do Japão ao Peru, das letras de funk a trechos bíblicos, passando por obras religiosas. Nas bancas, nos livros, no cinema, nos quadrinhos, na TV no domingo, na Internet, sobretudo. O erotismo, o sexo, o prazer e seus derivados estão expostos na nossa cultura, de Ocidente a Oriente, por todo lado, a qualquer alcance, para quem quiser ver. Na arte, mais precisamente, já se somam cerca de 30 mil anos desde que pintores e escultores resolveram retratar o que convencionamos chamar de intimidade. E mesmo com um longo histórico, resumido aqui brevemente, é comum vermos artistas como Tainá Maneschy lutando, em pequena ou grande escala, contra a censura das suas obras, neste universo aparentemente livre das redes sociais, onde cabe a cada indivíduo adulto a decisão de ver, de seguir, de dar like, de dar unfollow. De consumir ou não.


Tainá é ilustradora, nasceu em Belém (PA), mudou para São Paulo, depois para Lisboa, e passou a ter o erotismo feminismo como centro do seu trabalho depois das censuras à "Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira", exposição realizada em Porto Alegre (2017), promovida pelo Santander Cultural, que escandalizou meio país. Em suas obras, Tainá coloca as mulheres no protagonismo da ação e na retratação do prazer, muitas vezes o "autoprazer". A masturbação, melhor dizendo.


Neste último fim de semana, o mesmo que marcou a chegada da artista aos 30 anos de idade, ela expôs suas ilustrações em aquarela na capital paulista, poucos dias depois de ter sua conta no Instagram cancelada, o que fez com que ela perdesse, além de milhares de seguidores, um meio eficiente de divulgação do seu trabalho, de contato com o público e colegas.


Nesta entrevista ao Uma Artista Por Dia, Tainá conta como é ser uma artista, mulher, jovem, brasileira, que retrata o erotismo feminino. Fala também do atual cenário social e político e se mostra preparada para a censura, para a crítica, para o block, ainda que perca as esperanças vez ou outra, por alguns minutos. Ao lado dela, uma necessária rede de apoio que a fortalece, para quem vez ou outra ela repete, como que para si mesma: "Vamos juntas!". Vamos.


UAPD - Tainá, eu tentei fazer uma cronologia do teu trabalho e, pelo medidor de tempo das redes sociais, você começou a postar suas ilustrações no seu perfil ali pelo fim de 2017, já com conteúdo erótico. Como começou teu trabalho de ilustradora e quando o sexo passou a ser o tema principal?


Me formei em cinema e até os 27 anos trabalhei com produção audiovisual, até então nunca tinha me aventurado na ilustração, apesar de ter um marido ilustrador e uma pós em História da Arte. Era daquelas pessoas que acreditavam que você nasce com o talento, se você não sabe desenhar desde criança, você não vai aprender depois de adulto. Um grande mito, né? Em 2016 tive um mental breakdown por conta do trabalho e me vi quase que forçada pelo meu próprio corpo a me reinventar, não tinha ideia do que ia fazer.. mas fui me aventurando e acabei caindo nas artes, talvez não tão coincidentemente assim, mas comecei a trabalhar com conteúdo erótico mesmo em outubro de 2017.


Eu sempre fui fã desse tipo de desenhos , muito antes de pensar em ser ilustradora, @petitluxures sempre teve presente na minha vida. Daí, em 2017, com o episódio do Queer Museum, eu pensei que talvez fosse a hora de botar a cara à tapa pra fazer aquilo que sempre tive vontade, e pouca coragem, por medo da reação da família, até meu próprio pudor. Me senti instigada a quebrar essa barreira que estava sendo colocada naquele momento, então resolvi fazer um mês inteiro, em outubro, de desenhos eróticos, seguindo uma tradição da internet com a hashtag #inktober, que convida ilustradores a fazer um desenho com tinta por dia durante aquele mês. Eu fiz e foi sucesso. As pessoas que já me acompanhavam curtiram demais.. nem todas, claro (risos), e acabei formando um novo público. No final do mês, fiz uma votação pra saber se o pessoal queria que eu continuasse com o conteúdo erótico e a resposta foi praticamente unânime.



@_tainamaneschy


UAPD - A conta do seu Instagram, onde você postava seus trabalhos, foi censurada nesta semana. Como você lida com essas diretrizes das redes sociais e com outros tipos de resistência por conta do seu trabalho?


Ser uma artista que trabalha com conteúdo erótico numa rede social como o Instagram é um risco, não foi uma surpresa pra mim, pra ser sincera. Já vi vários colegas de trabalho que tiveram suas contas excluídas da noite pro dia, uma, duas, até 3 vezes. Mas acho que eu meio que não queria acreditar que poderia acontecer comigo. Mas aconteceu, não estamos seguros enquanto artistas eróticos dentro dessa rede social, a qualquer momento podemos ter nosso trabalho todo deletado por conta de denúncias de cunho moralista.


O que é louco e não faz sentido pra mim é que segundo as diretrizes do Instagram, nudez em obras de arte não é proibido, ou seja, eu não violei nenhuma regra. E nem os meus outros colegas de profissão que tiveram e, provavelmente, ainda terão suas contas deletadas. Dentro do Instagram tem um público de arte erótica muito grande, e artistas incríveis que usam essa plataforma pra divulgar e vender seu trabalho, é uma pena que a rede social ignore o potencial dessa área censurando obras de arte.


UAPD - Em uma das primeiras postagens, você pede que as pessoas não denunciem a obra e, caso não gostem do que viram, que apenas parem de seguir. Você ainda tem que repetir esse pedido com frequência?


Seria o mundo ideal né? Quem não gosta, simplesmente aceitar que outras pessoas gostam e não consumir. Ninguém é obrigado a gostar disso, e eu entendo que pode ser constrangedor pra algumas pessoas abrir o Instagram em lugares públicos e dar de cara com uma vulva, ou peitos, ou cenas de sexo. Mas, de novo, você não é obrigado. Não entendo por que as pessoas denunciam. Eu fazia esse pedido no início pois achava que algumas pessoas que me seguiam, como amigos antigos ou até mesmo familiares, poderiam se incomodar com o conteúdo que eu estava preparando. Depois de um tempo, entendi que o meu público foi se firmando e as pessoas que estavam ali, estavam curtindo o que eu tava produzindo, então não sentia mais a necessidade de fazer esse pedido específico, apesar de que, antes da conta ser deletada, tive uns e outros desenhos que foram derrubados.


Curiosamente, ou não, todos os desenhos que foram derrubados retratavam mulheres, vulvas, casais lésbicos, mamilos femininos... todos os desenhos deletados antes da conta toda cair, eram retratando mulheres. E veja bem, eu retrato com mais frequência a sexualidade feminina, porém volta e meia tem um pênis aparecendo por lá, cenas bem explícitas inclusive. Porém, nunca tive um desenho de pênis censurado. Fica aí o questionamento.


"Nunca tive um desenho de pênis censurado"



@_tainamaneschy


UAPD - O quanto o sexo, o erotismo e a liberdade sexual são importantes na luta feminista?


Pelo que eu tenho conversado com meninas ao vivo e nas redes sociais, acho que ainda há uma área nebulosa no que se diz respeito a empoderamento através da sexualidade feminina e objetificação sexual, especialmente quanto se trata de mulheres negras, que historicamente são exploradas sexualmente e até negadas de seus próprios prazeres em favor do prazer masculino. Algumas se sentem empoderadas e livres falando abertamente de sua sexualidade, corpo e desejos, outras sentem-se objetificadas com tanta exposição.


Acho que um ponto muito importante da luta feminista é dar o direito da mulher ser o que ela quiser - seja ela empoderada através da abertura e liberdade da sua sexualidade, seja ela discreta dentro da sua sexualidade, mas uma coisa é certa: dedinhos no clitóris e mãozinhas molhadas. O auto-conhecimento sexual liberta, quer você queira expor isso, ou não. Muitos desenhos que eu faço de amigas, por exemplo, elas não querem ser identificadas no post, apesar de adorarem o meu conteúdo e a retratação que fiz da foto que elas me enviam. Outras gostam de ser identificadas no meu perfil e também compartilham nos seus perfis, orgulhosas de sua vulva, peitos, qualquer que seja o objeto retratado. O importante é respeitar cada uma dentro de sua individualidade.


"Acho que um ponto muito importante da luta feminista é dar o direito da mulher ser o que ela quiser"

UAPD - Você acha que o atual momento social e político no Brasil, com uma forte onda conservadora e de extrema direita, influencia na aceitação das tuas obras?


Sem dúvida. Mas com a onda conservadora vem também a onda revolucionária, e é com essa galera que eu quero conversar, trocar, compartilhar. Um dos momentos em que tive obras deletadas na conta que está atualmente desativada, foi depois que comecei a fazer parte da campanha #elenão, no dia da primeira postagem sobre isso já tive comentários negativos e duas postagens derrubadas. Eu sinceramente sinto isso quase como um chamado, mulheres livres quanto sua sexualidade e existência são perseguidas há séculos, desde Lilith, tida como demoníaca porque se recusou a ser submissa a Adão, até hoje, com os crescentes casos de feminicídio e violência contra mulheres que vemos diariamente como se fosse nada. Séculos se passaram, muitas coisas mudaram, algumas pessoas ficaram.


"Com a onda conservadora vem também a onda revolucionária, e é com essa galera que eu quero conversar, trocar, compartilhar"

UAPD - Você mora em Lisboa hoje, onde seus trabalhos são expostos em galerias ou eventos. Como surgiu o desejo de mudar de país? Quais diferenças você percebe entre os dois públicos, o português e o brasileiro?


Eu e meu marido sempre tivemos essa vontade de morar fora, e Portugal acabou sendo o destino mais óbvio pra nós, pois ele tem cidadania. Final de 2017, eu te confesso que nem sei te dizer exatamente o que que foi, mas resumindo a gente se olhou e disse: "bora? então bora!". Foram uns dois meses de preparação, venda das nossas coisas, documentos e estrutura em Lisboa e fomos. Moro pouco tempo em Lisboa, vai completar um ano agora em fevereiro, talvez não tenha tanta vivência pra sacar as diferenças claras entre os públicos, mas sinto que em São Paulo existe um público maior e mais aberto a esse tipo de arte. Em Lisboa não é que as pessoas não sejam abertas, mas talvez tenham tido pouco contato, espero mudar isso logo. Trabalho com mais dois artistas num estúdio em Alcântara, na LXFactory. @arashida e @kidgalindro são meus parceiros e amigos queridos, em breve também faremos a inauguração do espaço com exposição de nossos trabalhos e de outros artistas amigos.





UAPD - Quais as dores e as delícias de ser uma artista, mulher, jovem, que tem o sexo como tema principal do trabalho?


As delícias são incontáveis! Identificação do público, especialmente o feminino. Ouvir que eu retratei o mamilo do jeitinho da pessoa, me deixa muito feliz, e vulvas e peitos, saber que alguém se identificou com o desenho ou com a música que eu usei pra ilustrar, saber que inspiro mulheres a se conhecerem e se amarem, ter o apoio da minha família, especialmente minha mãe, pai, irmã e marido, realmente não tem preço. O reconhecimento de outros artista que admiro, isso tudo é muito lindo e gigante, quase não cabe no meu coração!


Dores com certeza são os homens sem noção mandando fotos de pênis não solicitados no meu inbox. Eu costumava postar alguns prints com as mensagens que recebia, tinha um destaque na conta antiga que chamava "harassment wall". Mas sempre que postava isso percebia duas coisas: eu recebia mais mensagens como a que eu tava denunciando, quase como se eu tivesse provocando os homens por pedir que não fizessem isso, e também recebia MUITO apoio de seguidores e amigos, me desejando força e pedindo para que não parasse de produzir, e eu não pretendo parar mesmo, porque no final as dores ficam formiguinhas perto da imensidão das delicias.


"Saber que inspiro mulheres a se conhecerem e se amarem (...) realmente não tem preço"

UAPD - Tuas obras são feitas a partir de fotos, imagens ou vem tudo da tua imaginação?


A partir de fotos, quase em sua totalidade, poucas faço de cabeça. Gosto de me inspirar em fotos de casais ou pessoa reais, pois sinto que eles têm mais verdade no momento que foi capturado. Aquele microssegundo é algo que existiu mesmo, o prazer foi sentido naquele momento, e eu acho lindo imortalizar aquele instante numa aquarela. Já usei fotos de algumas também censuradas contas do Tumblr, mas nos últimos tempos eu tava realmente preferindo fotos de pessoas que eu conhecia, sejam elas encomendas, ou amigos que eu me senti com abertura para pedir e eles para enviar, casais amigos, seguidoras queridas, até minha irmã eu já pintei.





UAPD - Que outras pessoas, detalhes ou situações te inspiram, seja na arte ou na vida?


Me inspiro em músicas, conversas com amigos, sonhos, meus próprios desejos, desejos de outros. @petitluxures, @tinamariaelena e meu marido @arthurportov são minhas maiores inspirações artísticas, sem dúvida. E esse último pode ter uma inspiração mais do que artística (risos). Tenho uma lista gigante de pessoas que me inspiro diariamente, mas tem uma pessoa que está no topo dessa lista desde que eu me entendo por gente: Edna Reis, mamãe.


UAPD - Fala um pouco sobre as tuas próximas exibições, vai rolar uma na tua cidade natal, né?


Isso! Rolou uma em São Paulo no último sábado (2), que foi também quando eu fiz 30 anos. Foi na Colabirinto, espaço de amigos muito queridos, dentre eles @moarabrasil, que junto com meu marido, esteve ao meu lado durante o meu processo de descoberta artística em 2016. E vai ter essa em Belém do Pará, minha cidade natal, dia 07, no Casarão Floresta Sonora, espaço de amigos muito queridos também. Acho muito gratificante trabalhar com quem você ama e admira.


UAPD - Quais caminhos você quer trilhar com teu trabalho? Quais conquistas ou sonhos vocês quer ter alcançado daqui a alguns anos?


Quero poder seguir inspirando mulheres e compartilhando com elas, crescendo juntas. Quero poder saber que deixei uma marca na luta feminista pelo espaço da mulher na arte, no sexo e na vida.


No Instagram: @_tainamaneschy


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